quinta-feira, 2 de abril de 2009

.As Frias Paredes de um Suposto Lar.

Foi em um nublado sábado à tarde que a vida tiraram-lhe. Vida essa que aos poucos foi carregada porta afora dentro de caixas de papelão. Presenciei cada detalhe do ocorrido, cada caixa levada aumentava cada vez mais a sensação de vazio. Uma morte silenciosa e lenta.

No final do dia ele havia reduzido-se a poucas bugigangas em alguns de seus cantos, que seriam levadas logo que o dia raiasse novamente. Fechei a porta atrás de mim para uma despedida e fiquei parada por um momento, contemplando o que um dia havia sido meu refúgio e que agora não passava de superfícies vazias. Percebi então que não se tratava apenas do que podia ser visto, havia algo no lugar que não era propriamente físico. Algo de mágico penetrava suas rachaduras.

Andei lentamente, percorrendo os seus quatro cantos, que um dia foram tão cheios de vida. Enquanto a ponta dos dedos gelavam tocando de leve a superfície da parede, fui recordando cada momento vivido entre elas.

Confiáveis, ouviram sempre mudas por todas as vezes que lhes confessava algo do peito. Elas estavam sempre lá, acalentando as lágrimas tão doídas e protegendo-as de olhos curiosos e mesquinhos que nos rodeavam. Quando estávamos apenas nós, sentia-me livre. Elas proporcionavam a dança e o canto sem medos ou pudores, permitiam uma liberdade que não experimentei em lugar algum além de ali, entre as quatro e eu. Volta e meia, lembrei, elas cobriam-se de posteres e cartazes auto-afirmativos, que eram substituídos a cada nova fase, a cada nova moda. Foram elas também que me esperaram pacientes a cada fim de noite, que velaram meu sono e que acordaram-me a cada manhã. Dia após dia.

E agora, vejo-me acariciando paredes nuas, já tão diferentes da velha confidente de outros tempos. Sinto elas olhando-me desconsoladas, como se previssem que este seria o último encontro. Finalmente entendo o porquê de elas não estarem completamente vazias, apesar da aparência.

Estas paredes guardarão em si para sempre um pedaço do meu ser, aquele que deixo para trás fazendo-lhes companhia, mas que levo comigo na memória. O que fica nelas visível são apenas os furos das marteladas de pregos e parafusos, que fiz questão de deixar, como para dizer a quem há de vir que estas paredes carregam consigo não só concreto, tinta e tijolos, mas lembranças da vida que antes lhe habitava.

Dizer adeus nunca foi tarefa fácil, principalmente quando sabe-se que será definitivo. Um murmúrio e um último olhar antes da porta ser fechada são tão doídos quanto uma facada no estômago. Viro as costas e prefiro não dizer adeus nem com as mãos, agora tão frias quanto as paredes do antigo lar.

6 comentários:

meus instantes e momentos disse...

muito bom o texto, foi muito bom vir aqui.
Maurizio

Fabrício disse...

Nossa, adorei o seu texto... Tenho que vir aqui mais vezes.

Quanta coisa "só" para relatar uma impressão... como foi essa inspiração? Mudança?


Forte abraço,
Fabrício

O Profeta disse...

As madrugadas na Ilha
São feitas de morna calmaria
A brisa dança no silêncio
Os pássaros dormem em harmonia

Uma valsa de bonança
O rodopio das águas de um ribeiro
As hortênsias pintam a terra de azul
Um sino solta o seu tocar primeiro



Boa Páscoa


Mágico beijo

Roberta Albano disse...

Bastante sofrido, eu acho.
Sofrido como sempre é quando temos que se desfazer de algo que nos apegamos.
Até que as mudanças sejam tão frequentes que não exista mais a magia do apego.


ps.: aquele texto é do mesmo ano que o outro =) Foi escrito no mesmo mês que o outro (mês esse que eu nao sei ^^)

gerson oliveira disse...

Gostei bastante do texto, bem linear e bom. :)
e falar de impressão, se sensações nem é tão fácil.

:)

Cazú disse...

- Tu não tá feliz, filho?Tu estás fazendo três aninhos... Quatro aninhos, cinco, seis, sete... Dez, onze... E por fim quatorze.

E aí acaba, né?Simplesmente acaba!
Fiquei com a porta semi-aberta, com a mão na maçaneta, dando uma ultima olhada – vendo que eu tava deixando minha vida toda pra trás, atrás de um futuro duvidoso.

Olha, eu sei o quanto dói – deixar “O Rancho da infância” – deixar toda e qualquer memória e eixo seu pra trás.
Também tive a mesma oportunidade de voltar lá – e ver naquela parede, bem no canto, na união entre a outra, próximo ao chão – um pedaço de parquê queimado, de um dia que eu inventei fazer churrasco no quarto.

Comentei contigo no MSN – e esse comentário prefiro encerrar por aqui!

Lindo, tocante – perfeito!

Beijos!